Sábado, 9 de Janeiro de 2010

Futebolês #09 SEGUNDA BOLA

Enquanto na nossa meninice, nos tempos em que podíamos passar a vida na rua, na maior das tranquilidades – apenas quebrada por um ou outro vidro partido ou por aquele vizinho com cara de poucos amigos, normalmente o do vidro partido, que haveria sempre de encontrar mais um motivo para embirrar – havia uma única bola, às vezes de trapos, no futebol a sério há imensas bolas.

Uma sai de campo e há logo dezenas de outras prontas para a substituir. No final dos jogos, quando correm bem, até há bolas para enviar para as bancadas… Bolas não faltam!

Então qual é a segunda bola? E a primeira? E não há terceira, quarta…enésima?

Pois é, mais uma vez, o futebolês a trocar-nos as voltas, onde nem sempre é o que parece mas muitas vezes parece o que é!

Claro que às vezes está uma segunda bola no campo. Umas vezes por circunstâncias meramente fortuitas outras nem tanto. Se a equipa da casa está a ganhar e as coisas estão apertadas, é frequente vermos mais uma bolinha sorrateiramente enviada pelo apanha-bolas para dentro do campo.

Uma segunda bola assim é mesmo a outra, a marginal. Por isso logo o árbitro interrompe a partida para que seja devidamente posta no olho da rua. Assim mesmo, com a suprema humilhação pública da expulsão e da segregação…Apontada a dedo e pronta a deixar-se atingir por uma qualquer primeira pedra…

Bola que preze não gosta de ser a segunda e muito menos a outra. A um ser tão distinto como a bola, a mais apetecível beldade, como aqui dizia a semana passada, ninguém passa a perna. Apesar de tantas vezes maltratada e agredida, à vista de toda a gente, em plena exposição pública, sem direito à reserva, à intimidade e ao aconchego do lar da violência doméstica, a bola não abandona os seus pergaminhos por mãos alheias. Nunca por nunca seria a outra…

Por isso foi necessário encontrar um outro sentido para a segunda bola, condizente com o seu estatuto de estrela cobiçada pelos mais jovens, belos e ricos de todos os homens.

Em primeiro lugar a segunda bola teria de ser a mesma da primeira. Sem diferença nenhuma, a mesmíssima! Depois teria que se encontrar o tempo e o espaço que pudessem garantir isso mesmo, que a bola é a mesma. Para tudo isto a segunda bola teria de ser mais que uma bola: a bola e a sua circunstância!

A bola na sua circunstância de rechaçada pela defensiva na sequência de um lance de ataque do adversário. Pode confundir-se com outro termo de futebolês a recarga – mas não é a mesma coisa. Embora a recarga possa ser uma segunda bola, esta é muito mais que uma recarga.

A recarga é uma circunstância particular, digamos que uma sub-circunstãncia, da segunda bola: recuperação seguida de remate, directo e imediato. A segunda bola é a bola recuperada depois de uma iniciativa de ataque interrompida atabalhoadamente pelo adversário, naquele estilo do salve-se quem puder.

Quando a equipa que defende passa a perder sistematicamente as segundas bolas começa a sentir-se asfixiada, tipo Manuela Ferreira Leite. A segunda bola não é mais que a réplica do futebolês à segunda vaga, o que transmite uma ideia de cadência, uma cadência tanto mais avassaladora quanto mais sucessivamente repetida. É o sufoco, a tal asfixia! Ao adversário resta-lhe livrar-se da bola de qualquer maneira e para bem longe, de modo a que a inevitável nova segunda bola demore mais um bocadinho a chegar. Uma nova segunda e não, sucessivamente, uma terceira, quarta… Claro que já percebemos que faria muito mais sentido a expressão recarga, no sentido de voltar à carga, ou de voltar a carregar.

Mas pronto, recarga é outra coisa; e assim sempre se arranjou algo de mais nobre e digno para a segunda bola!

O recente jogo entre o Benfica e o Porto, tão recente que é da última jornada da Liga, resolveu-se com uma segunda bola. Uma segunda bola ganha pelo David Luiz, Para os benfiquistas, seguiu-se um passe longo a isolar o Saviola; para os outros um alívio, um charuto que, por sorte, foi parar ao Saviola. Que fez golo, o único!

Evidentemente que esta coisa de ganhar as segundas bolas tem muito que se lhe diga: posicionamento da equipa, linhas subidas e, principalmente a pressão alta são os ingredientes tácticos para uma receita de sucesso. Que é como quem diz, descodificando o futebolês, todas as zonas do campo bem preenchidas, com a linha de defesas à entrada do meio campo adversário e com imediatas e sucessivas acções de recuperação da bola quando e onde tenha sido perdida. Mas muitas vezes caem mesmo do céu!

 

publicado por Eduardo Louro às 07:13
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3 comentários:
De Pedro Oliveira a 9 de Janeiro de 2010 às 08:26
Houve um jogo qualquer esta semana que passou penso que o SCP-SCB em que teve de haver mesmo uma segunda bola é que a primeira fez PUF.
Se estra crónicas chegam ao José Fialho, ainda rouba o lugar a algum erudito na bola pelos media nacional,LOL.
abraço e bom fds
De Eduardo Louro a 10 de Janeiro de 2010 às 00:19
Essa bola mais não fez que recusar-se a evoluir num relvado tão deplorável quanto o de Alvalade. Uma mera questão de dignidade... Infelizmente, e dado o desemprego, por cada bola que se recusa a "beijar" a relva de Alvalade há sempre uma segunda bola disposta a tudo!
De PortoMaravilha a 13 de Janeiro de 2010 às 21:09
Não podia de deixar comentar perante outro belo texto. Todavia, não sei se o título mais correcto, visto os últimos acontecimentos não seria :Fute-bala.

Ainda pensei salientar que o benfica tinha ganho com um fora de jogo , que tem um relvado que...

Desisti porque outras ideias me atravessaram a mente.

Ontem ( tentei escrever mas foi tudo ao ar por minutos ) ouvi na France Inter um comentario que dizia : "Angola não é a Africa do Sul e o Paquistão não é a Inglaterra " . Ah ? pensei eu.

Em seguida : " Pode ir com toda a segurança até a Africa do Sul " . Ah ? pensei eu.

A África do Sul é um país mais que perigoso. A revista "So Foot " que neste caso se deveria ter chamado "No Foot" alerta para os perigos que corre o próximo campeonato do mundo.

O futebol está moribundo. Desde a tragédia do Heysel algo mudou.

Nuno


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