Terça-feira, 21 de Julho de 2009

E a crise continua...

 

Passou despercebido, sem que a comunicação social lhe tivesse dado particular atenção, um desabafo do Ministro (da Economia e das Finanças, não sei em que qualidade nem é isso que importa), que transmitia um sinal de impotência no combate à crise. “As políticas não estão a conseguir combater a crise” – era o desabafo!

 

Não importa agora especular sobre as razões pelas quais este desabafo ficou “escondido” e foi ignorado, pelo menos até ao momento em que escrevo, pelos media. Não importa especular mas importa salientá-lo. Porque não deixa de ser estranho. Nem tão pouco se seria possível ouvi-lo da boca do seu antecessor na pasta da Economia, o tal que decretara, por mais de uma vez, o final da crise. Não, o assunto é sério!

 

Temos assistido, por cá e por todo o lado, a sucessivas tentativas de fazer passar a mensagem de que a crise já tinha batido no fundo e que já entráramos na recuperação. A vontade e a necessidade de acreditar nisso é de tal ordem que se sucederam as mais alucinantes miragens. E, como no desespero da imensidão do deserto, essas miragens apenas fazem crescer o desespero.

 

A primeira estilizava o mercado de capitais. Que, durante mais de metade do segundo trimestre, revelava sinais positivos. E logo muitos economistas, entre os quais eu próprio, confesso, lembravam uma velha regra: a retoma dos mercados financeiros antecipa, entre 6 e 12 meses, a da economia. Portanto ela aí vinha!

 

Depois era a retoma da economia americana. Era claro o efeito Obama também na economia e, em 2010, o motor da economia mundial aí estaria a roncar, com toda a sua potência. Até a GM saía de falência em apenas um mês!

 

Os sistemas financeiros estavam recuperados e tudo voltaria a ser como dantes. Nada mais falso. Não estavam, nem estão. Apenas aproveitaram como analgésicos os largos milhões nele injectados por todo o mundo. Porque, para a economia, nada passaram.

 

Mais um grande banco americano (o CIT – não, não é o Citi Bank – um banco destinado ao financiamento da economia real, das PME americanas) está prestes a falir, sem que ninguém lhe acuda. O preço do barril de petróleo – que voltaria a subir com a animação dos mercados bolsistas, não em função da realidade da procura mas apenas por influência dos agentes não comerciais – os especuladores – poderá cair, na opinião de alguns especialistas, para os 20 dólares no próximo ano. É uma opinião que vale o que vale – não acredito também nessa miragem paradisíaca (porque se trata da uma comoditie de grande volatilidade geo-estratégica, com uma procura muito rígida e uma oferta cartelizada, e, “the last not the least”, porque a maioria da exploração é inviável àquela cotação, o que logo faria baixar a produção … que corrigiria esse preço) – e, o que vale, é que não se acredita na retoma, sem a qual não há consumo, também de petróleo.

 

 Então por que se deixou de acreditar na retoma? Porque, como desabafava o nosso ministro, as políticas não conseguem ser eficazes!

 

E a verdade é esta: se estas políticas não o conseguiram até aqui, não há muitas razões para acreditar que o consigam daqui para a frente. Porque o aumento do desemprego continuará a travar o consumo. Logo, a capacidade instalada das empresas por utilizar não parará de crescer. Logo, não haverá investimento das empresas. Porque o endividamento de famílias e empresas é grande. Logo, a prioridade é poupar e amortizar dívidas, nunca investir ou consumir. Porque os estímulos orçamentais dificilmente se poderão manter. As intervenções dos estados levaram-nos a esgotar já muitos dos seus recursos, gerando défices estruturais e níveis de endividamento que dificilmente poderão continuar a crescer.

 

 

publicado por Eduardo Louro às 08:18
endereço do post | comentar | favorito
5 comentários:
De Pedro Oliveira a 21 de Julho de 2009 às 09:22
Aquilo que sinto no terreno é que os stocks terminaram, entretanto é preciso produzir,em encomendas mais pequenas,ninguém quer ter stocks, os fornecedores não têm matéria prima para entrega imediata como antes, as fábricas que fecharam deixaram alguns clientes "enrascados" e as que vão sobrevivendo, têm que ser mais flexiveis por causa dos prazos e encomendas mais pequenas.Isto requer uma ginástica interna grande, mudança de paradigmas de gestão financeira, compras e industrial/produção.As que vão sobrevivendo, estão a levar com as produções que estavam em empresas que entretanto fecharam e os niveis de facturação estão a ser idênticos a 2008 (nosso caso), com o beneficio das matérias primas estarem mais baratas. Isto é o lado "bom", o lado mau é que a economia não está, e não sei quando vai estar, a crescer por forma a criar novos postos de trabalho e o surgimento de novas empresas e sem consumidores não vai ser fácil o "comboio" arrancar.
De Eduardo Louro a 21 de Julho de 2009 às 12:15
Pois é Pedro. Há sempre um lado bom da crise ...mas sempre apenas para alguns. Todas as ameaças comportam algumas oportunidades. Mas essas são as andorinhas que não fazem a Primavera.
O resto é Gestão. Rigorosa e exigente em permanência e não apenas em tempo de vacas magras. Flexibilidade, just in time ", rigor na eliminação de desperdícios e controlo financeiro são princípios de gestão "tout court". Valem sempre, é neles que assenta a produtividade global, não valem só para enfrentar crises. Aí são apenas vitais! Fazem a diferença entre a morte e a sobrevivência. Nem só de despedimentos de faz o combate à crise, ao contrário do que muitos julgam!
De Jorge Oliveira a 21 de Julho de 2009 às 15:01
O que o Sr Eduardo Louro diz é tudo verdade, no entanto, há sempre uns "entantos", o que tem acontecido é que quer as empresas produtoras quer as distribuidoras deixaram de fazer stocks como o Pedro diz e bem, só que precisam de vender e quando fazem orçamentos dão prazos curtos, que seriam normais se tivessem stock, mas são irreais porque ainda os vão ter que fabricar ou encomendar à fábrica, porque se fossem verdadeiros os potenciais clientes iriam procurar outro fornecedor que lhes fizesse um prazo mais curto, e há sempre alguém que diz que faz em menos tempo e mais barato, pode é estar a mentir, e depois todas as teorias do "just-in-time ", gestões rigorosas, etc. , vão por água abaixo.
Nesta fase de desconfiança no mercado, esta prática corrente gera atrasos nas entregas, atrasos nos acabamentos de obras/produtos, atrasos nos recebimentos, que no limite pode levar a despedimentos e falências.
Agora nesta cadeia quem é o pior gestor, o que quer vender, sabendo que se for verdadeiro deixa de vender o que o pode levar a falir ou o que encomendou o produto, que na relação preço/qualidade/prazo fez a melhor opção?
De Eduardo Louro a 21 de Julho de 2009 às 23:45
Sr Jorge Oliveira,

O seu comentário é oportuno e faz todo o sentido. Mas aplica-se a actividades que operam na lógica da encomenda. A produção por encomenda é aplicada em alguns sectores de actividade - uma parte do todo. Tem aplicação na produção e distribuição de grande parte de bens de investimento. Mas já não a tem na maior fatia da actividade económica, a que se dedica a bens de consumo. Aí, meu caro Jorge Oliveira, planeamento, marketing e distribuição rimam com rigor de gestão.

Comentar post

.vasculhar neste blog

 

.quem esteve à mesa

Ana Narciso

Eduardo Louro

Jorge Vala

Luis Malhó

Paulo Sousa

Pedro Oliveira

Telma Sousa

.Palestras Vila Forte

Prof. Júlio Pedrosa - Audio 

 

Prof. Júlio Pedrosa - Video 

 

Prof. António Câmara - Palestra

Prof. António Câmara - Debate

Prof. António Câmara - Video

 

Agradecemos à Zona TV

 

.Vila Forte na Imprensa

Região de Leiria 20100604

Público 20090721

O Portomosense20081030

O Portomosense20081016

Região de Leiria20081017

Região de Leiria20081017

Região de Leiria2008052

Jornal de Leiria 20080529

O Portomosense 20071018

Região de Leiria 20071019 II

Região de Leiria 20071019 I

Expresso 20071027

O Portomosense 20071101

Jornal de Leiria 20071101

Região de Leiria 20071102

.arquivos

.arquivos blog.com

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

.Vizinhos Fortes

.tags

. 25 abril(10)

. 80's(8)

. académica(8)

. adopção(5)

. adportomosense(11)

. aec's(21)

. alemanha(7)

. ambiente(9)

. amigos(5)

. amizade(7)

. angola(5)

. aniversário(9)

. antónio câmara(6)

. aquecimento global(7)

. armando vara(9)

. ass municipal(12)

. autarquicas 2009(46)

. avaliação de professores(9)

. be(7)

. benfica(13)

. blogosfera(16)

. blogs(38)

. blogues(19)

. bpn(6)

. casa velório porto de mós(10)

. casamentos gay(17)

. cavaco silva(8)

. censura(7)

. ciba(6)

. cincup(6)

. convidados(11)

. corrupção(7)

. crise(35)

. crise económica(8)

. cultura(7)

. curvas do livramento(10)

. democracia(7)

. desemprego(14)

. disto já não há(23)

. economia(25)

. educação(63)

. eleições(7)

. eleições 2009(55)

. eleições autárquicas(40)

. eleições europeias(12)

. eleições legislativas(46)

. escola(8)

. escola primária juncal(9)

. eua(8)

. europa(14)

. face oculta(18)

. freeport(14)

. futebol(39)

. futebolês(30)

. governo(6)

. governo ps(39)

. gripe a(8)

. humor(6)

. internacional(18)

. joao salgueiro(38)

. joão salgueiro(15)

. josé sócrates(7)

. júlio pedrosa(10)

. júlio vieira(6)

. juncal(31)

. justiça(11)

. liberdade(11)

. magalhães(6)

. manuela ferreira leite(13)

. médio oriente(10)

. medo(12)

. natal(13)

. obama(6)

. orçamento estado 2010(7)

. pec(8)

. pedro passos coelho(7)

. podcast(11)

. politica(12)

. politica caseira(6)

. porto de mós(119)

. porto de mós e os outros(41)

. portugal(27)

. presidenciais 2011(6)

. ps(48)

. psd(54)

. psd porto de mós(11)

. publico(9)

. religião(6)

. rtp(12)

. s.pedro(6)

. salgueiro(16)

. sócrates(81)

. socrates(62)

. teixeira santos(6)

. tgv(6)

. turismo(8)

. tvi(6)

. twitter(17)

. ue(17)

. vila forte(24)

. todas as tags

.subscrever feeds