Sábado, 12 de Setembro de 2009

Jorge de Sena

CARTA A MEUS FILHOS
SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possivel que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o numero dos que pensam assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa _ essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
_ mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga _
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Será ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram,, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge Cândido de Sena

 

publicado por Pedro Oliveira às 12:17
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4 comentários:
De António carvalho a 12 de Setembro de 2009 às 13:03
Os homens que não se acomodam, escondem também uma parte importante dos seus medos.
Às vezes, são como pássaros que cantam a perda de uma árvore, aquela onde o seu berço de nascença, deixou viva a perda provocada pelo estio da incompreensão. Certo, é que o tempo fará renascer a brilhante mensagem do gosto de viver, mesmo com mágoa e até às vezes com raiva.
Como por analogia com esta mensagem de J. Sena, saltou-me ao caminho Luis de Camões, Vitorino Nemesio, Miguel Torga e José Saramago.
É esta dimensão de Pátria e Povo que tão marcadamente estes nossos heróis de mensagem nos legaram, que devem marcar e sinalizar o ser português aqui e agora.
São a revolta contra a injústiça, contra a pequenez do pensamento mesquinho e rasteiro e da fotografia sem arte. E quando eles escrevem e falam de politica, logo me diz o meu Fernando Pessoa, -Diz-lhe na cara o que penso deles e o que são verdadeiramente.
Concluindo: Alguns destes nossos heróis ausentaram-se para evitar o sufoco que a medíocridade dos tempos politicos lhes impôs e outros se encarregou o tempo de os fazer voltar apenas como símbolo desta brilhante postura humana, doce, lirica, rude, critica forte e irreverente, sempre na dimensão maior da grandeza do pensamento criador do futuro.
Saibamos ser dignos destes nossos mestres de mensagem de globalização cultural. E se eles vão regressando mesmo que em cinzas físicas, é sinal que estão vivos entre nós. Obrigado Pedro Oliveira pelo texto aqui expresso.
De João Romeu a 12 de Setembro de 2009 às 13:09
Muito bonito.
Dá para pensar no velho ditado (na cama que fizeres nela te hás-de deitar) e que vale apena lutar por um Mundo melhor, e que ninguém tem o direito de nos privar de exprimir o que pensamos, mas com respeito pelo o que o outro pensa.
De PortoMaravilha a 13 de Setembro de 2009 às 00:07
Não me enganei e , cada vez mais, estou convencido que o Vila Forte é um belo ( no sentido primeiro do adjectivo ) espaço de liberdade.

Bem haja, Pedro Oliveira por ter citado Jorge de Sena.

Sem dúvida o único autor Português, graças ao seu texto, "Sinais de Fogo" , a expôr e a pensar a problemática futura da Europa e do Mundo , pensando a história da guerra Civil Espanhola .

A Guerra Civil Espanhola continua a incomodar. Há que a revisitar.

Não creio que seja um azar se George Orwell, autor de 1984, tenha optado, por combater ao lado dos anti franquistas sem partido ( estes serão eliminados sem piedade pelo pce) . O pacto entre Hitler e Estaline estava em andamento.

Penso que "Sinais de Fogo" nos permite ver e sentir as inquietações, na altura, da juventude Portuguesa que vive num país periférico e neutro (? ) , mas que sente que muito perto de si se desenha algo que transformará a história da humanidade.

E Viva o Porto !














De Miguel a 13 de Setembro de 2009 às 17:06
Um texto maravilhoso,bem oportuno nos tempos que correm na vila forte que parece que entrou em desvario.Força Pedro,não desista.

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