Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Futebolês #11 SELO DE GOLO

A bola levava selo de golo!

Quer dizer, traduzindo do futebolês, que aquela bola tinha, à partida, o destino traçado: aconchegar-se às redes, beijar a rede, dar em golo!

No entanto a bola pode levar selo de golo e … não ser golo. Poderá até parecê-lo, mas não é! E nestas coisas de golo não há dúvida: mais vale sê-lo que parecê-lo. Só vale mesmo sê-lo… Pode levar o endereço errado, e não há selo que lhe valha. Mas o endereço até pode estar correctíssimo. Basta que esteja escrito com letras muito grandes para não dar em nada. É que o guarda-redes lê-o bem lá ao longe e quando a bola lá chega já ele lá está, pronto a recebê-la.

Este recurso do futebolês á linguagem postal demonstra a sua ancestralidade. O futebolês é uma linguagem construída antes da revolução nas tecnologias de comunicação e portanto vai socorrer-se de imagens que, neste domínio, são quase pré-históricas, como é o caso do selo. Do selo dos correios! Da estampilha postal! Porque há outros selos que se mantêm actuais, como os do Sá Pinto, por exemplo.

O rapaz errou a profissão, o que ele queria mesmo era ser carteiro. Mas não, nunca lhe deram essa oportunidade. Primeiro convenceram-no que seria jogador profissional de futebol e ele, a contra gosto lá foi andando, jogando pouco é certo mas correndo muito e com muito empenho, como se tivesse um giro dos grandes a cobrir, e distribuindo, não cartas como ele gostaria, mas fruta. Distribuía fruta - não daquela que é usada lá para os lados do Dragão, de que voltamos a ouvir falar esta semana – mas da outra, também chamada fragatada, a torto e a direito. Porque tinha aquela inclinação para as lides postais, distribuía também alguma daquela matéria-prima usada na colagem dos selos. Depois, uns anos mais tarde, já perfeito símbolo do seu clube – o tal que é diferente, tão diferente que o símbolo até pode vir de um dos rivais (o próximo será, sem qualquer dúvida, o João Pereira) – e quando por lá manda(va)m as claques por entreposto presidente (não confundir com o presidente do Entreposto, esse era presidente a sério), convenceram-no que bom mesmo seria como que uma espécie de director desportivo. Não podiam ficar atrás dos rivais e vizinhos do lado e até daria para aproveitar a boleia e ganhar uns bons trocos numa campanha de publicidade de uma operadora de comunicações móveis…

Ninguém ficou muito tranquilo! Se ele já gostava de selar, com poder a subir-lhe à cabeça… Mas pronto, a coisa aguentou-se por dois meses, também não se podia exigir mais!

O selo não é o único dos termos hoje pré-históricos a que o futebolês recorre. Há outra: o papel químico, que hoje já pouca gente conhece e ninguém utiliza! Diz-se, por exemplo: “uma jogada tirada a papel químico da jogada do golo”. Quando hoje se deveria dizer, por exemplo, não que os murros do Sá Pinto ao Liedson foram tirados a papel químico, mas sim um copy paste dos murros ao Artur Jorge.

Percebe-se que o futebolês esteja agarrado as expressões que as novas tecnologias tornaram ultrapassadas. O próprio futebol convive mal com essas tecnologias, ao ponto de o conhecido Rui Santos ter liderado uma petição, já entregue na Assembleia da República, com vista a melhorar as relações do jogo com as ditas. Convive mal com as câmaras instaladas nos túneis. Alguns tão mal quanto isto: ontem, mais de um mês depois do jogo do Porto na Luz, e depois de toda a tinta que correu sobre o que se passou no túnel, com jogadores suspensos e inquéritos em curso há um mês, vem um responsável portista dizer que afinal ele próprio é que fora agredido e que os jogadores apenas reagiram em sua defesa. Convive mal com as tecnologias de escutas, com a Internet e com Youtube. Com esta última então há quem conviva muito mal. O tal presidente muito dado a antigos hábitos de envolvimento com árbitros, de que falávamos na semana passada, é um dos casos. A ponto de, segundo dizem, ter apresentado uma queixa-crime. Não sabemos nem contra quem nem porquê.

Mas ficamos a saber como se passavam as coisas, quem mandava, da falta de escrúpulos e até da forma como o vernáculo sela a linguagem das altas esferas do dirigismo do nosso futebol! Conversa que se preze é selada com o que de melhor ilustra o nosso vernáculo! O futebolês é para os outros!

 

 

PS 1: Esta rubrica, em resultado de algumas alterações que nos preparamos para vos dar conta, passará a chegar ao Vila Forte um dia mais cedo – à Sexta-feira. Já na próxima semana!

 

PS 2: Uma referência para um blogue que se dá pelo nome do título de hoje: http://selodegolo.blogspot.com/. A não perder para quem gosta destas coisas!

publicado por Eduardo Louro às 07:00
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