Domingo, 24 de Janeiro de 2010

O aproveitamento da ignorância

Por ocasião do trágico terramoto ocorrido no Haiti, a impotência humana perante os elementos vêm mais uma vez ao de cima. Talvez por defeito de fabrico, a raça humana procura sempre uma causa para todas ocorrências não dependentes da sua vontade. Hoje em dia já existe explicação para os fenómenos sísmicos mas a sua previsão, e ainda menos o seu controlo, não são de todo possíveis.

 

No passado quando os conhecimentos científicos não eram suficientes para explicar cada fenómeno recorreu-se à esfera metafísica.

 

Ao ler o post do Eduardo sobre esta interpretação lembrei-me de uns excertos de leituras sobre o Terramoto de 1755 que aqui partilho convosco.

 

O medo irracional do povo, em parte estimulado pelo fanatismo religioso, aflora a cada passo na literatura portuguesa sobre o terramoto. Tremer e temer tornam-se sinónimos. A leitura do momento, organizada pelo providencialismo católico, inculca um forte sentimento de culpabilização. A palavra de Deus, tomada como extensão da Terra em furor, tinha um duplo significado, punitivo e misericordioso. Gabriel Malagrida, por exemplo, assegurava, no Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto (1756), que só por castigo a face da omnipotência divina se tornaria tão horrenda. Hereges, judeus e católicos, todos eram responsáveis pela vingança implacável de Deus. A causa próxima do flagelo radicava, em seu entender, nos mundanos e profanos modos da vida urbana, com os seus “teatros, as músicas, as danças mais imodestas, as comedias mais obscenas, os divertimentos, as assistências aos touros, sendo tanto o concurso, que enchiam as praças, e as ruas todas; e as igrejas, nas festas sagradas, nos sermões, nas missões apostólicas, por mais fervorosas que fossem não aparecia uma alma”. (...) Outros oradores, disputando a fama do célebre jesuíta, foram ouvidos e idolatrados pelo povo. Cabem neste grupo Manuel Macedo Malafaia, que fala de um Novo Terramoto nos remorsos da consciência (1756) e Fr. Manuel da Epifania, que menciona no Portugal consolado e instruído com as vozes de Jesus Cristo (1757) a promessa do filho de Deus em reedificar a cidade depois de resgatadas as culpas dos seus habitantes. (...) A mensagem era simples. Para que a Terra não mais vacilasse era preciso deixar de pecar e fazer penitência.

 

O Terramoto da 1755 – Lisboa e a Europa, de Ana Cristina Araújo

 

Acrescento que a Universidade de Coimbra em 7 de Fevereiro de 1756 elegeu São Francisco de Borja como protector oficial do reino e domínios de Portugal contra os terramotos.

 

Ainda outro excerto:

 

«Do cimo de púlpitos improvisados ao ar livre, os padres proclamavam que o terramoto, as inundações e os incêndios não eram mais que uma pequena amostra da ira que Deus ameaçava descer sobre aqueles que não se arrependessem. Alguns perguntaram porque é que Deus tinha, então, poupado a prisão e o bairro da prostituição, ao passo que destruíra praticamente todas a igrejas apinhadas de fiéis.»

 

A Primeira Aldeia Global, de Martin Page

 

Sobre o Terramoto do Haiti, Hugo Chavez já arranjou uma explicação visionária para o sucedido.

Eu confesso que estou a estranhar ninguém ainda ninguém ter associado o Terramoto do Haiti ao aquecimento global (ou arrefecimento, ou lá o que é), à conferência de Copenhaga ou aos movimentos de capital especulativo. Mas ainda vamos a tempo de ouvir algo do género.

 

publicado por Paulo Sousa às 08:06
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5 comentários:
De Eduardo Louro a 24 de Janeiro de 2010 às 16:01
O aproveitamento da ignorância para fins propagandísticos, sejam ele de ordem forem, é recurso antigo e sempre à mão para impõr o medo, o maior dos aliados dos déspotas ou dos que, de qualquer forma, querem impôr os seus interesses.
Chavez, em causa no referido post, é um dos especialistas na matéria com a agravante de achar que para além de ignorantes somos todos parvos. Claro que aquela "tirada" só tem a ver com o agravamento das dificuldades do povo da Venezuela das últimas semanas e consequente agravamento do endurecimento do chavismo. Exemplos das últimas semanas: uma das maiores desvalorizações da história do bolívar (desvalorização selectiva superior a 20% para bens essenciais e de mais de 100% para os restantes, como electrodomésticos e automóveis); febre consumista em consequência do aumento de preços, com filas em tudo o que é estabelecimento comercial; perda de mais de 50% do poder de compra da população, encerramento compulsivo e nacionalização de cadeias de supermercados; restrições e cortes no fornecimento de electricidade e água (com queda do ministro da electricidade); indícios de roturas no seio do próprio aparelho chavista. O endurecimento chegou ao ponto de Chavez encerrar uma estação de televisão apenas porque não passara um seu discurso!
É este o estado do país do"socialismo do século XXI". Por tudo isto me surpreendi (e desabafei!) com os comentários "naífes" a esse meu post.
De antonio carvalho a 25 de Janeiro de 2010 às 12:55
Futebolesmente escrevendo, acho que fez uma grande jogada de chutar para corner, mesmo sem adversário por perto.
Sera´que o Hugo Chaves tem lido os seus post.s de Futebolês e como bom jogador numa equipa de ignorantes, aprendeu de imediato que algumas jogadas e comentários analiticos das mesmas, são mesmo para engana tolos e ignorantes ?
Oh Dr. Eduardo Louro, então a Venezuela é o socialismo do século XXI ?! Parece que as teorias económicas estão subvertidas na sua análise, pois não é por haver desvalorização de moeda que se está perante uma crise. É antes de tudo uma prática do sistema capitalista para dominar ou amortecer relações de trocas(sobretudo de comércio externo) que determinado país pratica com os seus parceiros económicos. Será que é o capitalismo de cariz socialista que o Dr. pensa existir na Venezuela. ?
É que nacionalizar não quer dizer socialização. Veja o que aconteceu a leste da Europa ou o que o governo Sócrates fez em relação ao BPN !.
De Paulo Sousa a 25 de Janeiro de 2010 às 13:51
Espero que não levem a mal entrar na conversa, mas a nacionalização do BPN é e será recordada como uma das faces do socialismo de Sócrates. Numa economia liberal como a nossa devia ser, o BNP seria simplesmente deixado cair e os escandalosos números envolvidos nunca seriam suportados pelos portugueses desta e da próxima geração. Os vários milhares de milhões de euros são um custo da governação socialista. Caricato é depois ouvir o governo justificar a nacionalização com a protecção das poupanças dos clientes e quando se muda de canal vemos os clientes do BPN barricados na Agência de Leiria e pedir o reembolso das suas poupanças.
Regressando a Chavez, tenho um amigo que regressou recentemente da Venezuela e vou convida-lo a escrever sobre o Socialismo Bolivariano da Venezuela visto por dentro, os relatos pelo telefone prometem.
De Eduardo Louro a 25 de Janeiro de 2010 às 15:29
Como é visível coloquei a expressão (socialismo do século XXI) entre aspas. A expressão não é minha, circula por aí. Fez o seu caminho e é aplicada ao caso Venezuelano que, como se sabe, tem subjacente uma determinada política redistributiva
que me vou agora dispensar de comentar.
O regime de Chavez não se enquadra em nenhum “ismo” que não seja despotismo combinado com “maluquismo”, pelo que sobre socialismo ou “capitalismo de cariz socialista”, como refere, estamos conversados.
Sobre a desvalorização da moeda (quem sabe se não lançará mão dela para vender o seu petróleo, já que não tem mais nada para exportar???) deve notar-se que (independentemente de todas as relações que possam ser estabelecidas) eu não a relacionei com crise nenhuma, mas com as “dificuldades do povo venezuelano”, as tais que o homem quer esconder com os disparates que teoriza, como os que estavam em apreço.
Ó Sr Carvalho, o que aconteceu com a nacionalização do BPN já todos percebemos, mas diga cá à gente o que é que aconteceu a leste da Europa: afinal aconteceu por lá socialismo ou não?
Adianto-lhe a minha resposta: eu acho que não, mas sempre achei. Mas, já agora, gostaria de conhecer a sua.

Um abraço para si.

De PortoMaravilha a 24 de Janeiro de 2010 às 20:34
Existem , todavia, coincidências estranhas. Leiam o que segue. Desde já escrevo que não sou chavista .

Em 12 de Dezembro de 1999, o petroleiro Erika faz naufrágio ao largo da Bretanha. É uma catástrofe ecológica sem precedentes. Continua a não se saber muito bem a quem pertencia o navio.

Em 25 e 27 de Novembro de 1999 a França conhece temporais nunca vistos. Florestas são destruidas e o parque do Castelo de Versalhes perde quase todas as suas árvores.

Na altura, o governo de Jospin ( ps ) que era contra os ogm e os aim ( conjunto de direitos novos para as relações multinacionais / estados ), faz, após estes acontecimentos, uma viragem de 180 graus ( talvez por isso não será eleito, realizando um score riquiqui nas eleições presidenciais frente a Chirac ).

Em 14 de Março de 2003 , o cíclone Erika devasta a Nouvelle Calédonie , obrigando o Estado Francês a uma enorme participação financeira.

Um mês antes, Dominique de Villepin ( direita -Gaullista ) tinha pedido para que houvesse uma reunião do Conselho de Segurança da onu , para avaliar a situação no Irak ...no dia 14 de Março. A reunião não teve lugar.

Não estou a escrever : Nem sobre a Bd de Jacobs ( Blake & Mortimer / Sos Meteorites ) nem sobre Haarp.

Unicamente, sobre coincidências que foram averiguadas , aquando o tratamento dum "dossier" sobre o navio Erika que acompanhei.

Em seguida, que cada um tire as conclusões que queira.

Nuno





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