Domingo, 7 de Março de 2010

Os "Leandros" deviam ser, também, a preocupação dos portugueses

"Ontem, quarta-feira, Christian não foi à escola. No dia anterior, almoçou à pressa na cantina, saiu aflito para o recreio quando viu, mais uma vez, o corpo franzino de Leandro, primo e amigo de 12 anos, ser espancado por dois colegas mais velhos.

Depois, perseguiu o rapaz que, cansado da tortura de quase todos os dias, ameaçou lançar-se da ponte, ali a dois passos. Perseguiu-o, impediu-o. Por fim, imitou-lhe os passos, degrau a degrau, até à margem do rio Tua. O primeiro estava decidido a morrer: despiu-se, atirou-se. O segundo estava decidido a salvá-lo: despiu-se, atirou-se.

Leandro morreu - é a primeira vítima mortal de bullying em Portugal; Christian agarrou-se a uma pedra para sobreviver. Antes, arriscou a vida a dobrar: digestão em curso em água gelada. Eram 13.40 horas. Ontem não foi à escola. Os pesadelos atrasaram-lhe o sono. Acordou cansado, alheado, emudecido. Leandro não é caso único. Ele também já foi agredido.

Christian não é o super-homem; não é sequer rapaz encorpado; é um menino assustado, tem 11 anos, não terá 40 quilos, o rosto salpicado de sardas e tristeza. Os olhos dos pais pregados nele, os dele cravados no chão da sala. Não estava sozinho na luta. "Estava eu, o Márcio (irmão gémeo de Leandro), o Ricardo...", este e aquele, os nomes dos amigos como um ditado, ele encolhido, no colo um cão minúsculo a quem insistentemente afaga o pêlo. "Não conseguimos salvá-lo, já estávamos tão cansados". O lamento sabe a resignação e à inquietação de quem veio de outra escola, em Andorra, Espanha, onde "à mais pequena coisa, os professores chamavam os pais", recordam, "preocupados", Júlio e Júlia Panda, pais de Christian, filhos da terra, Mirandela, no cume de Trás-os-Montes, retornados há pouco mais de um ano, trazidos com a crise e o desemprego. Vivem agora na aldeia de Cedainhos, a 15 quilómetros da cidade, lugar estacionado no tempo, onde vivia também Leandro e onde todas as casas, com laços mais ou menos próximos, são casas da mesma família.

Escola sem luto nem explicação

Um palmo acima, na mesma rua, vive a avó, Zélia Morais. Tem a cozinha cheia netos, mais de dez, netos de todas as idades, os gritos inocentes dos mais novos a misturarem-se na dor dos outros. Sabe tudo ao mesmo fado. É a imagem da desolação, ela prostrada no sofá, o coração com febre. "O meu menino era tão humilde. Todos os dias vinha saber de mim. Todos os dias", palavras repetidas embrulhadas em falta de ar. "E agora?" Agora, responde o filho Augusto, homem de meia idade que a coluna prendeu a uma cadeira de rodas, "agora, nem que tenha de vender tudo, vou até ao fim do mundo para saber quem levou o meu sobrinho a matar-se". A ameaça parece dura, dura um segundo, desfaz-se em pranto. "O meu menino sentava-se aqui comigo, conversava como adulto, era a minha companhia". Os pais de Leandro também vivem ali; não estão. "Estão em casa amiga, passaram a noite no hospital".

Ontem Christian não foi à escola. Mas na escola dele - E.B. 2,3 Luciano Cordeiro, onde partilhava o 6º ano com Leandro -, o dia foi normal. Nem portas fechadas nem luto nem explicação. O porteiro do turno da tarde entrou às 15 horas, bem disposto. "Sou jornalista, queria uma entrevista", ironizou. Tiro no pé. O JN estava lá. Perdeu o humor, convidou-nos a sair "já". A docente que saía do recinto também foi avisada, inverteu a marcha, já não saiu. Havia motivos para baterem tantas vezes no Leandro? Responde Christian: "Todos batem em todos".

 

HELENA TEIXEIRA DA SILVA

 

nota: deixo link a meu texto sobre temática bullying no Vila Forte, AQUI.

 

publicado por Pedro Oliveira às 10:58
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De Ana Narciso a 7 de Março de 2010 às 14:35
Lamento profundamente o sofrimento destas crianças dentro do espaço escolar. E do meu ponto de vista espaço escolar entende-se desde o momento que uma criança entra no autocarro até ser devolvido outra vez à família. Infelizmente se o episódio de violência continuada e testemunhada acontecer fora dos "portões" da escola " já não é da escola .. .fica terra do nunca. Quem tem a responsabilidade ?A Escola? A Autarquia? As forças de segurança pública? a resposta: é todos e ninguém .Até quando?
De antonio carvalho a 7 de Março de 2010 às 15:27
Estive agora a fazer um comentário em outro blog, sobre questões da juventude. Antes de fechar a porta passei por aqui e salta o problema da violência infantil e juvenil dentro das escolas.
Nunca fui pedagogo nem professor, embora tivesse acompanhado sempre de perto a problemática do ensino e das vivências de tais épocas e espaços.
Nenhum País do mundo se torna evoluído, civilizado, socialmente justo e ambientalmente saudável, se os Governos não quizerem. Logo, o inverso também me parece verdadeiro.
O bem estar social e equilibrio individual das pessoas de determinado país, tem nos estímulos e orientações colectivas o seu reflexo exterior. Há largos anos, a orientação geral e politica dos nossos governantes é dizer mal dos actores educativos(professores, técnicos de educação qualificados e auxiliares de acção educativa) e ainda dos rebeldes e mimados alunos que não querem estudar nada.
Na aceitação destas miseráveis insinuações e mentiras, vão os pais e encarregados de educação caindo como tordos na armadilha, responsabilizando cada vez mais a escola no seu todo, desculpabilizando os principais responsáveis: politicos e seus incompetentes e venerandos bajuladores).
É antes de mais, necessário que os pais assumam e responsabilizem os verdadeiros culpados, que são quem decide e obriga os estudantes a ser números e bodes expiatórios das nefastas politicas educativas e sociais do governo. Não deixem os seus filhos ser carne para canhão. Descubram a razão da insatisfação dos seus filhos perante as injustiças que esta escola pública vai criando e quais as dores que os vossos filhos transportam para casa, quando sabem de tanta mágoa de não poderem ajudar o seu parceiro, cujos pais estão sem emprego e sem dinheiro para a comida necessária.
A escola dos vossos filhos, tem de ser um local solidário, afectivo e acolhedor das virtudes de meninas, meninos e de jovens. É a fábrica em construção do homem do amanhã.`´E o futuro da nossa segurança na velhice. Não deixemos que a escola de hoje se torne a cultura do nosso albergue sem afectos.
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