Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Futebolês #18 Bola dividida

Já vimos que as bolas se podem multiplicar, que muitas vezes se multiplicam em campo e que até há segundas bolas. Dividir a bola é coisa que parece não bater certo: se há apenas uma bola … não se pode dividir. A bola é como um número primo…. Todavia movimenta-se em ambientes de grande divisão e provoca ela mesma muitas divisões.

 

Por exemplo os portistas estão divididos sobre o destino a dar ao treinador: enquanto uns acham que deve sair já, de imediato, outros acham que deverá sair apenas no fim da época. Mas estão absolutamente unidos na decisão de não levar o seu contrato até ao fim…

 

Também os sportinguistas estão agora divididos sobre o mesmo tema: treinador. Ainda há bem pouco tempo estavam absolutamente unidos sobre a matéria: o contrato precário do Carvalhal era para cumprir. Mas agora já não, estão mesmo muito divididos!

 

Os portistas estão ainda divididos sobre uma matéria que verdadeiramente os angustia. É a questão do segundo lugar no campeonato. Uns torcem pelo Braga para que o Benfica não seja campeão. Outros sabem que o terceiro lugar não dá Champions

 

Se há tanta coisa dividida no mundo da bola como não poderia haver uma bola dividida? Até o jogo é dividido. É certo que é dividido por dois meios campos e é dividido em duas partes. Que, ao contrário da bola, até é divisível. Mas não é por isso que se fala de um jogo dividido!

 

Ainda no final do jogo do Benfica de ontem Jorge Jesus, que não é grande orador mas de futebol(ês) sabe como poucos, dizia que o jogo tinha sido dividido. Mais, que a eliminatória seria ela própria também dividida. Quer isto dizer que o jogo não se tinha caracterizado por um claro domínio de uma equipa mas pela repartição do domínio e das oportunidades de o ganhar. Como a eliminatória dividida quer dizer está em aberto, sem um sentido claro de favoritismo. Mas isso era já um exagero de expressão porque, pelo que se viu, ela parece já bem inclinada para o lado do Marselha…

 

A expressão bola dividida não tem qualquer analogia com a do jogo dividido. Nem poderia ter, como facilmente se percebe.

 

Num jogo a bola é objecto da mais acesa e mais brava das disputas. É mais disputada que a mais bela das donzelas no baile da paróquia, até porque a relação é-lhe bem mais favorável: uma única para vinte e dois mancebos. Os encantos do jogo jogam-se em grande parte nessa disputa, que milhões de olhos seguem sem qualquer tipo de descrição. Uma disputa que tem vários momentos. É precisamente um desses momentos que determina a bola dividida. A bola é dividida quando está em condições de ser disputada em igualdade de circunstâncias, quando se encontra numa posição equidistante aos dois contendores que a disputam. Quando, pode dizer-se assim, se encontra em terra de ninguém.

 

A bola dividida faz uma certa apologia da livre concorrência e da transparência. Uma bola transportada pelo Di Maria ou pelo Messi, junto ao pé, como se nas botas tivessem um íman que a atrai, está bem de ver que não é uma bola dividida. Essa é como aquela donzela que vai para o baile da paróquia mas já leva o namorado, que não descola e que pode até provocar alguns dissabores a alguém mais atrevido, como canta o Rui Veloso.

 

Tudo é desculpável para discutir uma bola dividida. É por isso que muitas vezes muito boa gente trata por bolas divididas umas que estão bem agarradas, daquelas que vão de braço dado com o namorado. O que evidentemente só pode correr mal. É o caso daquelas entradas a matar, que só podem mesmo dar vermelho, mas que o árbitro desculpa por se tratar de uma bola dividida.

 

E pronto, daqui já se fica mesmo a ver que a bola dividida é assim como o Natal. É quando um homem quiser. Se é um dos nossos que entra com tudo (outra do futebolês) não tem mal nenhum: era uma bola dividida. Se é um do adversário, qual bola dividida qual quê?

 

A bola dividida, a par da segunda bola, constitui ainda um dos principais indicadores de sucesso. Quem ganha mais bolas divididas, a exemplo de quem ganha mais segundas bolas, está mais perto de ganhar o jogo. Por razões óbvias: porque é quem mais se empenha, quem mais luta, em suma, quem mais trabalha. E, também no futebol e ao contrário do dicionário, o trabalho vem antes de sucesso!

 

publicado por Eduardo Louro às 08:00
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2 comentários:
De Pedro Oliveira a 12 de Março de 2010 às 10:42
Ontem o Tonel também não queria dividir a bola com ninguém....
O gajo do Marselha,aos 90 min, também se demonstrou um bom egoísta....
Só espero que amanhã João Ribeiro e companhia,AAC, façam o mesmo, gajo do OM, ao FCP, vai ser lindo!!
Nós no ECC não gostamos de dividir com ninguém...
De Dylan a 12 de Março de 2010 às 10:44
Não acho que o Marselha tenha a eliminatória "bem inclinada". A questão que se coloca é: decidirá o Benfica arriscar a condição física dos seus jogadores na Liga Europa em detrimento das competições internas, num calendário muito apertado e mal estruturado?

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