Sábado, 24 de Abril de 2010

Mais uma vez a Igreja

Este comentário do José Ferreira serviu de mote a este post. Quando terminei a leitura do que connosco partilhou disse para mim: touché!! isto merece ser esmiuçado. Aqui vai.

 

Aos olhos de hoje, Jesus foi um homem de esquerda, não apenas, mas também por ter defendido a igualdade entre os homens. Esta expressão, igualdade entre os homens, pode estar tão batida se tenha encolhido da plenitude do seu significado. Na época, em que a escravatura era algo banal, foi uma mensagem revolucionária e por isso os primeiros cristãos terão sido perseguidos pelos poderes instituídos.

Não quero alongar-me em detalhes históricos, até porque não sou historiador, mas ao longo dos séculos e no meio de muitos erros que a Igreja cometeu, especialmente pelo poder temporal que acabou por conseguir, a mensagem 'igualdade entre os homens' foi ficando e foi entrado, geração após geração, na cultura que agora chamamos de ocidental.

O modelo social europeu, as constituições democráticas e a essência da República, assentam na igualdade entre os homens.

É curioso notar que o iluminismo que combateu o poder temporal da Igreja e laicizou os estados, não destruiu a mensagem e, arrisco-me a dizer, até a reforçou. A 'igualdade entre os homens' alargou-se a quem professe outras religiões e dessa forma a tolerância religiosa tornou-se noutro fundamento do pensamento ocidental.

Após tudo isto não deixa de ser curioso observar a recusa de certos sectores da sociedade europeia em que houvesse qualquer referência à tradição judaico-cristã na matriz cultural da Europa no preâmbulo da Constituição Europeia, Constituição essa que acabou por nunca ter valor legal, mas isso já são contas de outro rosário. Entendo que a dita referência, a existir não beliscaria o carácter laico da União Europeia, e pelo contrário, negar influência judaico-cristã é negar a própria história.

Interpreto tudo isto numa dinâmica anti-clerical que está na moda neste início do sec. XXI. Senão vejamos.

Faço-vos um desafio.

Imaginemos que na próxima edição da Moda Lisboa, a organização preparava diversos desfiles para diferentes zonas da cidade e concentrava os desfiles de fatos de banho para a Rua Dr. Júlio Dantas. Tudo parece banal à excepção da referida rua servir a entrada principal da Mesquita de Lisboa.

Pergunto. Parece razoável? Numa cidade moderna do mundo ocidental, tolerante e laico, isto faz sentido?

Sinceramente acho de mau gosto e até instigador de um desnecessário choque cultural e religioso. Digo isto e não concordo de todo com a posição que o Islão manifesta em relação à exposição de corpos seminus ou mesmo quase nada nus, como é o caso das mulheres que não usam burkha ou véu islâmico.

Na mesma perspectiva acho de mau gosto a iniciativa que pela internet se propõe a angariar voluntários para nos 'dias em que o Papa vai estar em Portugal, conseguir o maior número possível de pessoas nos locais onde o Papa vai realizar as missas e distribuir preservativos e/ou folhetos informativos relativos à prevenção da SIDA pelo maior número de pessoas presentes nesses locais.'

Mais uma vez discordo da posição que a religião em causa manifesta sobre este assunto específico, desta vez a Igreja Católica e o tema preservativo, mas esta será apenas uma forma de fomentar momentos de tensão e de eventual violência que são desnecessários para a resolução do problema da SIDA e do controle da natalidade.

Mais uma vez vemos a Igreja debaixo de fogo. Põe-se a jeito é certo, mas numa sociedade mais esclarecida e tolerante, os cidadãos guardariam para si próprio as decisões da esfera pessoal e deixaria para a Igreja a metáfora do Padre António Vieira, que é o de pregar para os peixes.

publicado por Paulo Sousa às 08:00
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

TEM A EUROPA MEDO DO ISLAMISMO?

Na semana passada, um tribunal francês recusou o visto de residência a um homem originário de um país árabe (ou muçulmano), casado com uma francesa, por o marido obrigar a esposa a usar burqha. Interrogado pelo tribunal, o marido confirmou que a obrigava a usar tal traje e acrescentou que as mulheres não eram iguais aos homens, eram seres inferiores e não tinham, por isso, os mesmos direitos. Face a estas declarações e atendendo à lei francesa que determina a igualdade de género (disposição legal comum a todas as civilizações ocidentais) o tribunal pronunciou-se pela negação da cidadania francesa ao convicto marido e mandou recambiá-lo para a sua terra natal (segundo me pareceu pela notícia). Esta decisão insere-se na discussão nacional francesa de autorizar ou não o uso de simbolos religiosos na vida pública daquela nação, tal como o véu muçulmano utilizado pelas senhoras. A França já, há muito, tinha proibido a exposição do crucifixo nas escolas francesas ou a utilização de simbolos religiosos cristãos nos estabelecimentos do Estado. Não nos podemos esquecer que a França foi a percursora da República na Europa com a Revolução Francesa. A França não é, apenas, a percursora do Estado laico na Europa mas é, estruturalmente, jacobina. Por curiosidade, lembro que Portugal foi o segundo país a implantar a República na Europa a qual nacionalizou a maior parte dos bens da Igreja Católica. Já antes, no tempo da Monarquia Constitucional, Joaquim António de Aguiar (1792-1834) declarou extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, sendo os seus bens secularizados e integrados na Fazenda Nacional. Por isso, ficou conhecido com a alcunha do Mata-Frades. Já não falo do Marquês de Pombal e da sua perseguição aos Jesuítas porque, neste caso, se tratava, porventura, mais de uma questão política relacionada com o Poder (Cristo foi claro ao distinguir o que é de César e o que é do Reino de Deus, portanto...) Se este tem sido o prercurso da Europa em direcção a Estados laicos porque terá de abrir excepções em relação à religião muçulmana? Muito recentemente a Suíça proibiu a construção de minaretes nas mesquitas suíças (salvo erro, através de referendo que é como as coisas se resolvem naquele país que não tem praias como Portugal e, portanto, os suíços votam em referendos enquanto os portugueses optam por ir a a banhos). Foi um escândalo para as boas consciências europeias sempre prontas a defender as minorias, ou seja, aqueles que não compreendem e que, no fundo, consideram uns "desgraçadinhos", porventura, com limites em termos de inteligência. Se os suíços, na sua forma de viver, não permitem descarregar autoclismos a partir da 22H00 para não incomodar o vizinho, porque teriam de correr o risco de, um dia destes, serem obrigados a ouvir uma série de vezes por dia chamadas para a oração corânica? Se, em Portugal, não é permitido pendurar crucifixos nas salas de aula será, ao contrário, legítimo admitir simbolos islamistas nas salas de aula, corporizados no uso do véu islâmico?

Uma das questões que me preocupa com o uso de burqhas e trajes semelhantes é a problemática da segurança. Cheguei a consultar um advogado para saber se o uso de vestimentas que cobrem a cara das pessoas é permitida nos locais públicos. Para meu espanto, é permitido. Eu próprio posso passear-me de passa-montanhas em pleno centro comercial. Duvido é que a polícia não corra a identificar-me; faz o mesmo com as mulheres muçulmanas que por lá já começam a aparecer de cara tapada? No sábado passado, dois homens disfarçados, vestindo burqhas, entraram numa agência bancária de uma povoação francesa (Athis Mons) passando calmamente pelos seguranças. Uma vez dentro do banco, puxaram das armas que escondiam debaixo das burqhas e ameaçaram matar toda a gente. Fugiram com o dinheiro da caixa, naturalmente.

Na mesma temática e dúvidas nas sociedades europeias, insere-se a questão de aceitar ou não a adesão da Turquia à União Europeia, trazendo mais 76 milhões de muçulmanos para a União para além dos milhões que já cá estão (não contando, ainda, com o Abel Xavier, recém convertido ao islamismo, que parece que ainda não apareceu na Mesquita de Lisboa, embora apareça muito na televisão a explicar como se converteu).

Face a isto em que é que ficamos? Sarkhozy é um reaccionário, populista e jacobino empedernido que tem medo do islamismo em França? Os Suíços, idem? Enfim, os europeus em geral estão com medo do islamismo ou a questão traduz-se em defendermos os nossos valores civilizacionais que garantem a igualdade de género, a liberdade religiosa e a igualdade de todos os cidadãos perante a lei? Eduardo Lourenço, o último grande ensaísta e filósofo português vivo disse que "a Europa será no futuro islâmica". Por mim, não vejo que daí viesse grande mal para a Europa desde que eu e todos os cristãos e membros de outras religiões pudessemos continuar a praticar a nossa fé com paz e sossego, bem como, não obrigassem os agnósticos e ateus a converterem-se ao islamismo e a rezar várias vezes por dia. Disso já nós tivemos por cá, quando D. Manuel I expulsou os judeus que se recusaram a converter-se à fé católica. Se Eduardo Lourenço tiver razão, a culpa também será das igrejas cristãs e dos seus fieis que se têm acomodado e esqueceram a sua missão primordial de evangelizar. O que me preocupa se a profecia de Eduardo Lourenço se cumprir, é saber se será aqui introduzida a prática, utilizada em muitos países muçulmanos, de perseguição aos cristãos, entremeada por algumas chacinas. Em muitos países muçulmanos nem sequer é permitida a existência de igrejas cristãs e, em países mais radicais, como a Arábia Saudita, a conversão ao cristianismo é punível com a pena de morte (já viste como tens sorte, Abel Xavier Faisal por viveres na Europa?). Se for assim, concordo que a Europa não pode consentir  e assistir impassivel à nova invasão do islamismo que irá destruir a sua civilização conquistada a partir da época do Iluminismo com muitas perseguições, guerras e dores de vária ordem (ademais, ficariamos sem poder publicar posts como este em blogues, inteligentes ou idiotas, não importa).

Termino este post (naturalmente polémico e susceptível de ser mal interpretado mas que tem a vantagem de não falar do Sócrates, do Carlos Queiroz, do Mário Crespo e da Manuela Moura Guedes) com uma sincera declaração de apreço, respeito e consideração pela comunidade muçulmana portuguesa que, seguindo a tradição dos tempos em que os árabes permaneceram naquilo que é hoje o nosso País durante 500 anos, se revelam de uma enorme tolerância, inteligência e bondade, mostrando que o islamismo é, na sua génese e essência, uma religião pacífica, rigorosa na fé mas acolhedora de todos os que procuram algo mais que o prazer, o consumismo e o egoísmo. Conviver é, afinal, possível.

Sábado, 19 de Setembro de 2009

Hoje termina o Ramadão

 

Para um bilião e meio de seres humanos, este é um mês especial.

A práctica do jejum ritual é o quarto dos cinco pilares do Islão. Além do jejum, neste período recomenda-se a práctica mais intensa da caridade, a vivência da fraternidade e dos valores familiares.

O facto deste período ser definido pelo calendário islâmico, um calendário lunar, faz com que seja celebrado em diferentes meses do calendário gregoriano. É imensa a informação que se pode encontrar na internet sobre este assunto.

A imagem que o mundo ocidental tem sobre o Ramadão é muito limitada. Não fosse a fraca performance dos jogadores muçulmanos que actuam no futebol ocidental e esta data passaria quase despercebida.

Há alguns anos estive num país árabe durante o Ramadão e fiquei com uma imagem diferente deste mês, que é um mês de festa.

As cidades são esvaziadas dos trabalhadores de origem rural, pois estes deixam o trabalho e juntam-se à família para junto deles celebrar o Ramadão. Isto implica que tudo funcione em serviços mínimos, ou simplesmente não funcione. Faz lembrar o que se passa no período de férias, com a diferença de que cá isso dura três meses. A título de exemplo, sucedeu-me num Hotel ser avisado que não havia água quente pois a pessoa que acendia a caldeira estava fora da cidade a celebrar o Ramadão.

Ao contrário da ideia de punição do corpo que associamos ao jejum, algumas pessoas com quem falei sobre o assunto justificam-no com base em recomendações médicas, ou seja, podemos compara-lo a um mês de dieta. Alguém discute as suas vantagens?

Ao contrário da ideia de oração e de penitência que associamos ao Ramadão, não deixa de ser incrível a animação que invade as ruas logo que o sol se põe. As esplanadas ficam cheias, os vendedores de comida estão por todo o lado, a música entoa pelos altifalantes do vendedores de cassetes e de CD's, as crianças brincam e correm, alguns jovens dançam, os idosos jogam dominó e outros jogos de mesa e aos mais pobres é oferecida comida e esmolas.

Entendi que almoçar no Ramadão fosse uma falta de respeito pelos muçulmanos e seguindo a máxima 'em Roma faz como os romanos' tive de fazer umas sandes e comê-las enquanto conduzia, sempre com a preocupação de quando me cruzava com outro carro não ser apanhado com a boca na botija, quer dizer, da sandoca.

Tive um guia que me explicou que estão dispensados do jejum as crianças, os idosos e os doentes. Pediu-me para parar ao anoitecer para rezar e depois disso aceitou um iogurte.

A ideia que fazemos do mundo árabe e do Islão é deturpada por muito ruído noticioso, facto que interessa, e muito, a uma extremamente reduzida minoria de islamitas radicais, que ganha relevo quanto maior for o atrito entre o mundo ocidental e o mundo árabe. Têm ambições de poder e para isso não hesitam em aliciar jovens para se suicidar em nome de uma religião que apela à paz e ao entendimento entre os povos.

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Estamos em Portugal, no rescaldo do 25 de Abril, e Lisboa é um tabuleiro de xadrez onde CIA e KGB jogam uma partida mortal. Os serviços secretos americanos, desesperados por apenas terem sabido do golpe de Estado através dos jornais, esforçam-se para impedir que Portugal caia nas mãos do comunismo. Do outro lado, a KGB tem em mente um plano diabólico e põe em campo os seus melhores agentes. É então que um golpe de teatro promete desequilibrar esta guerra fria. Natália Grifanov, mulher de um poderoso coronel da KGB, está disposta a passar para o Ocidente e a relatar todos os segredos que sabe. Para organizar essa deserção a CIA escolhe o seu melhor agente: Malko Linge. Mas nem ele conseguirá levar a cabo esta missão sem evitar danos colaterais. E é então que, nas ruelas de Alfama e nos palácios da Lapa, entre traições e assassinatos, a Revolução dos Cravos mostra a sua outra face.

E, acredite, não é bonita!

Um thriller soberbo e original, passado no pós 25 de Abril de 1974.


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