Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

Futebolês #26 Ceifa

  

A ceifa é, como todos sabemos, um processo de colheita. Caracteriza-se por deitar abaixo, derrubar: seja erva viçosa, milho verde ou trigo doirado, cevada, aveia ou simples feno.

É esta característica – derrubar, deitar por terra – que faz da ceifa uma colheita especial, mas que também transporta a dimensão do futebolês. No futebol não se ceifa a relva, ao contrário do que se poderia pensar. A relva é em geral cuidadosamente tratada e cortada, nunca ceifada. Às vezes é tratada de forma a chatear o adversário: regada (ou encharcada?) antes do jogo, deixada mais crescida para atrapalhar o adversário, ou até sujeita a rega no final do jogo apenas para dar um banho aos adversários que fiquem a festejar… Pequenos truques que, se comparados com o que vimos no passado domingo, não passam de simples e inocentes brincadeiras de crianças.

Já lá chegaremos. Por agora retomemos a ceifa e a sua aplicação a esta forma de expressão, ao futebolês. Está pois bem de ver que o que se ceifa no futebol é o adversário: derruba-se, deita-se por terra!

Ceifar o adversário não é um mero derrube. Não tem a preocupação de matar a jogada (é mais mesmo de matar o adversário!), nem da falta cirúrgica. É um derrube violento, acompanhado de um movimento que nos transporta para o imaginário da ceifa, daquela não menos violenta ceifa de foice em punho, que deixava os campos inundados de suor (e quantas vezes de lágrimas…) arrancado às entranhas de ranchos de mulheres que, de sol a sol, em pleno pique do Verão escaldante, vergavam searas que se transformavam em pão de um sustento sempre regateado. Só que, naquele campo verde, ao contrário da seara doirada transformada em árido e seco restolho, o movimento é executado pelas pernas.

Claro que ceifar o adversário, que também há quem identifique com arrancar pela raiz, que é outra forma de colheita, é uma entrada faltosa, também e ainda designada por entrada a varrer, e portanto punível disciplinarmente. É uma entrada violenta que coloca seriamente em risco a integridade física do adversário, a vítima que não é, nem poderá ser, um inimigo.

Já atrás deixei escapar que o tema que hoje pretendo abordar é outro. Tinha que pegar num vocábulo do futebolês, como é obrigatório, mas do que realmente quero falar é da intolerável violência que marcou todo o ambiente que rodeou o jogo do Dragão, entre o Porto e o Benfica, do passado domingo. Daí que tenha procurado uma expressão que se associa, e que já deixei associada, a dois conceitos que vêm a propósito: violência e colheita. Bem miscigenados na velha expressão popular: “Quem semeia ventos colhe tempestades”… E vêm-se semeando ventos há 30 anos!

Nada justifica, nem nada pode tornar aceitável, o ambiente de terror que foi criado à volta de um jogo de futebol. Um terror que vem em nítido crescendo, numa escalada que ninguém sabe onde irá parar.

O que se passou no Porto vem na sequência do que se tem vindo a passar ao longo dos últimos 25 ou 30 anos, em Lisboa, no Porto, nas auto-estradas, nas áreas de serviço, no Algarve…

O que se passou no Porto, e o que se vem passando em especial sempre que Benfica e Porto se encontram (desencontram), é o resultado de uma escalada a que a sociedade portuguesa tem de pôr fim. Não é mais um problema do futebol, é um problema de todos nós, é uma questão de civilização! É uma questão de cidadania, do Estado de Direito, de ordem pública! Porque todo o cidadão tem direito a sentir-se protegido e seguro em qualquer espaço do território nacional.

O estado a que se chegou é o resultado de muita incúria e de não menos irresponsabilidade. As próprias instituições do Estado deixaram-se contaminar pela manipulação da clubite e ficaram reféns de um poder que já ninguém sabe onde começa nem onde e quando acaba. Lembramo-nos todos de Vale e Azevedo que, envolvido num sem número de acusações, só depois de perder o manto protector da presidência do Benfica viria a ser incomodado pela Justiça, com os resultados que se conhecem. Não haverá mais? Não sei! Mas sei que parece que não há uma PSP nacional, mas uma de Lisboa e outra do Porto. E sei que, passados todos estes dias, das entidades oficiais ainda não ouvimos sequer uma palavra. Que nos tranquilize e que sirva de sério aviso a toda aquela gente que alimenta esta fogueira para que nunca se apague. Que transforma um dos mais belos espectáculos numa guerra sem sentido e que transforma os campos de futebol em campos de batalha.

Contou-nos há dias Eriksson, antigo treinador do Benfica, respeitado e reconhecido gentleman do futebol, que já naquele jogo das Antas de 90, em que os balneários estavam empestados de cheiros insuportáveis, nos tempos do famoso guarda Abel, Pinto da Costa lhe justificava tudo aquilo dizendo-lhe que “guerra é guerra”.

Já lá vão 20 anos em que recorrentemente se reclamava “Lisboa a arder”. Lisboa não ardeu mas a guerra ficou! E foi alimentando grupos de marginais que crescem à sua volta e que tomam conta do ambiente de terror que está a ceifar o futebol. Impunemente, como se pode ver pelo lamentável Comunicado do FC Porto, pelo cúmplice silêncio das autoridades públicas e pelas penas aplicadas pelas autoridades desportivas: duas multas ao FCP – uma de 1.200 e outra de 1.500 euros – provavelmente uma média pouco superior a um euro por cada bola de golfe, isqueiro ou telemóvel arremessados aos jogadores e ao treinador do Benfica. Ah! E uma multa ao Luisão, de 1.125 euros, por ter simulado devolver à procedência um desses isqueiros!

Assim se ceifa o futebol quando apenas era preciso mondá-lo!

 

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